26
de
junho
Resumo
Resume-se a quase nada
A rotina de tanta coisa!
Daqui eu vejo um retrato do mundo
Onde a loucura habita
Percorro os caminhos com uns olhos cansados
Enxergo curvas, becos, labirintos
Nunca os destinos, velados.
Daqui eu vejo a chuva caindo
Sobre rostos transfigurados
A frieza da água nos lábios
Arranca um suspiro são
Que morre
No grito que rasga a madrugada.
Ouço o tempo passar
No ruÃdo do relógio
Lentamente
Enquanto ferve
A água no bule.
Chego a esquecer
Da cidade
Fervilhando lá fora.
Da janela chega um recado
Mais frenético:
O tempo corre
O tempo vale
O dinheiro compra
O tempo.
Ah, cheirinho de café!
Tilintar da colher
E o toque sem pressa
Do relógio.
Esse blog é um velho amigo que eu não via há muito tempo.
Olha-se o rosto, a expressão com um sorriso de espanto. Aperta-se a mão. A velha intimidade, intimidada pelos anos de silêncio, aflora lentamente, com timidez. O assunto desenrola-se, colocando a corversa em dia. Há satisfação, mútua. A corversa é rápida, e os velhos amigos partem alegres e surpresos, reentregues às suas lidas.
A cidade calada
No fundo da noite
É mais bonita.
As palavras guardadas
Na luz de cada janela
São mais bonitas.
Os rostos confusos
Pintados de escuro
São mais severos
E misteriosamente bonitos.
A chuva que embala
O sono dos lares
E acua coitados
Nas grotas urbanas
Não merece culpa
É demais bonita.
A solitária lua
Em meio a estrelas
Quase mortas
Pelas luzes mortas
Da cidade
Ainda, e sempre,
São poemas
São bonitas.
As negras avenidas
Ferozes leitos
De rios concretos
Vazias, quietas
Parecem tristes.
E de tamanha
E tão medonha tristeza
São espantosamente bonitas.
Toque
Tensa, a corda
Estática, dorme
Silenciosa.
A corda guarda um grito
E aguarda.
Intensa, acorda
Num toque preciso.
Frêmito
A corda vibra.
O grito guardado
Desprende no espaço
Um canto.
Rumor
Ouço a chuva
Lenta noite
Ruidosa
Que me diz?
Que poesia
Na canção
Da chuvosa
Madrugada?
Que histórias
Que lamentos
Que sutis
Revelações
Lua mansa
Onde estás?
Me traduz
A voz da noite!
Me conforta
De acalantos
Me acolhe
Nos teus braços
Me repousa
No teu peito
E acalma
O peito meu…
Noite escura
Véu sombrio
Canta leve
Que me conta?
Ouço vozes
Vêm rumores
Mil sussurros
Que segredam:
O silêncio.
Saudade
Nessas horas
em que é tudo ausência
Silêncio vago
Solidão dispersa
Dias nublados de palavras
não ditas
Nessas horas aflitas
Acolhe-me a saudade.
Comprometido com ventos
Amanhecido de cantos
Abençoado de risos
Compadecido de prantos
Bem educado de berço
Degenerado de mundo
Predominado de santos
Coabitado por montros
Arborizado de sonhos
Abnegado de credos
Destituído de verbos
Silenciado de espanto
Famigerado de louco
Enfastiado de hiatos
Descarrilhado de rumos
Irrequieto de atos
Embevecido da vida
Anoitecido de amores
Absolvido de culpas
Entremeado de dores.
Não se apavore
Não precipite a sua escolha.
Aproveite a ilusão
Do tempo,
Utilize-o
Esparrame-se
Estenda-se.
Quantas vozes tem a alma
A serem ouvidas
Feras tantas a domar
Corpos a velar
Não tenha pressa.
Recuse soluções
Respostas?
Corte as pergutas
Todas
Tolas.
Há tanto,
Em cada passo,
Tanto a pesar…
Torna-se o fardo
Insuportável.
Há demais a dizer
Barulho muito
Desejos fervem
Querem gritar
Não faça nada.
Atravesso o avesso da madrugada
Esbarro em becos escuros
De olhos fechados
Vagueio os sentidos por todas as ruas
Ouço ruÃdos
Traço caminhos
Perco-me continuamente
Nos braços da lua
Reviro-me, espalho-me
Na ausência do sono
Na ânsia do grito
No pulso demente da vida
Escancarada presença da morte
Alta noite, hora do absurdo
O corpo estirado na encruzilhada
Dos infinitos rumos
Alma ardendo no transbordamento
Dos escusos desejos
Pardos gatos, uivos distantes
Olhares perdidos em mortas estrelas
Sono confuso nos lares
À deriva nas ruas, os passos
Noite fria, vozes quentes
Vasto, vasto mundo.
Hoje tive certeza.
A mais alta e forte expressão do ser humano é chorar. Antes, antes mesmo do riso. Em instantes de intensa alegria, lágrimas transbordam quando rir é raso demais. O choro culmina no momento do êxtase, onde o corpo estremece e, incontidamente, derrama-se.
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A música é uma comunhão.
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Eu queria poder sentir o silêncio da lua.
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