meu jardim

rascunhos, rabiscos e devaneios

26

de
junho

Resumo

Resume-se a quase nada

A rotina de tanta coisa!

23

de
junho

Sonho

Daqui eu vejo um retrato do mundo

Onde a loucura habita

Percorro os caminhos com uns olhos cansados

Enxergo curvas, becos, labirintos

Nunca os destinos, velados.

Daqui eu vejo a chuva caindo

Sobre rostos transfigurados

A frieza da água nos lábios

Arranca um suspiro são

Que morre

No grito que rasga a madrugada.

22

de
fevereiro

hora do café

Ouço o tempo passar

No ruído do relógio

Lentamente

Enquanto ferve

A água no bule.

Chego a esquecer

Da cidade

Fervilhando lá fora.

Da janela chega um recado

Mais frenético:

O tempo corre

O tempo vale

O dinheiro compra

O tempo.

Ah, cheirinho de café!

Tilintar da colher

E o toque sem pressa

Do relógio.

14

de
julho

há quanto tempo…

Esse blog é um velho amigo que eu não via há muito tempo.

Olha-se o rosto, a expressão com um sorriso de espanto. Aperta-se a mão. A velha intimidade, intimidada pelos anos de silêncio, aflora lentamente, com timidez. O assunto desenrola-se, colocando a corversa em dia. Há satisfação, mútua. A corversa é rápida, e os velhos amigos partem alegres e surpresos, reentregues às suas lidas.

29

de
fevereiro

de noite

A cidade calada
No fundo da noite
É mais bonita.
As palavras guardadas
Na luz de cada janela
São mais bonitas.

Os rostos confusos
Pintados de escuro
São mais severos
E misteriosamente bonitos.

A chuva que embala
O sono dos lares
E acua coitados
Nas grotas urbanas
Não merece culpa
É demais bonita.

A solitária lua
Em meio a estrelas
Quase mortas
Pelas luzes mortas
Da cidade
Ainda, e sempre,
São poemas
São bonitas.

As negras avenidas
Ferozes leitos
De rios concretos
Vazias, quietas
Parecem tristes.
E de tamanha
E tão medonha tristeza
São espantosamente bonitas.

18

de
fevereiro

três

Toque
Tensa, a corda
Estática, dorme
Silenciosa.
A corda guarda um grito
E aguarda.

Intensa, acorda
Num toque preciso.
Frêmito
A corda vibra.
O grito guardado
Desprende no espaço
Um canto.

Rumor

Ouço a chuva
Lenta noite
Ruidosa
Que me diz?
Que poesia
Na canção
Da chuvosa
Madrugada?
Que histórias
Que lamentos
Que sutis
Revelações

Lua mansa
Onde estás?
Me traduz
A voz da noite!
Me conforta
De acalantos
Me acolhe
Nos teus braços
Me repousa
No teu peito
E acalma
O peito meu…

Noite escura
Véu sombrio
Canta leve
Que me conta?

Ouço vozes
Vêm rumores
Mil sussurros
Que segredam:

O silêncio.

Saudade
Nessas horas
em que é tudo ausência
Silêncio vago
Solidão dispersa
Dias nublados de palavras
não ditas
Nessas horas aflitas
Acolhe-me a saudade.

22

de
dezembro

Eu?

Comprometido com ventos
Amanhecido de cantos
Abençoado de risos
Compadecido de prantos

Bem educado de berço
Degenerado de mundo
Predominado de santos
Coabitado por montros

Arborizado de sonhos
Abnegado de credos
Destituído de verbos
Silenciado de espanto

Famigerado de louco
Enfastiado de hiatos
Descarrilhado de rumos
Irrequieto de atos

Embevecido da vida
Anoitecido de amores
Absolvido de culpas
Entremeado de dores.

17

de
dezembro

Seja

Não se apavore
Não precipite a sua escolha.
Aproveite a ilusão
Do tempo,
Utilize-o
Esparrame-se
Estenda-se.
Quantas vozes tem a alma
A serem ouvidas
Feras tantas a domar
Corpos a velar
Não tenha pressa.
Recuse soluções
Respostas?
Corte as pergutas
Todas
Tolas.
Há tanto,
Em cada passo,
Tanto a pesar…
Torna-se o fardo
Insuportável.
Há demais a dizer
Barulho muito
Desejos fervem
Querem gritar

Não faça nada.

29

de
novembro

Hoje

Atravesso o avesso da madrugada
Esbarro em becos escuros
De olhos fechados
Vagueio os sentidos por todas as ruas
Ouço ruídos
Traço caminhos
Perco-me continuamente
Nos braços da lua
Reviro-me, espalho-me
Na ausência do sono
Na ânsia do grito
No pulso demente da vida
Escancarada presença da morte
Alta noite, hora do absurdo
O corpo estirado na encruzilhada
Dos infinitos rumos
Alma ardendo no transbordamento
Dos escusos desejos
Pardos gatos, uivos distantes
Olhares perdidos em mortas estrelas
Sono confuso nos lares
À deriva nas ruas, os passos
Noite fria, vozes quentes
Vasto, vasto mundo.

23

de
novembro

ápice

Hoje tive certeza.
A mais alta e forte expressão do ser humano é chorar. Antes, antes mesmo do riso. Em instantes de intensa alegria, lágrimas transbordam quando rir é raso demais. O choro culmina no momento do êxtase, onde o corpo estremece e, incontidamente, derrama-se.
.
A música é uma comunhão.
.
Eu queria poder sentir o silêncio da lua.
.
.
.

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